terça-feira, 12 de julho de 2011

Navalhas

                           

            As palavras violentaram o silêncio. No alento de um dia ensolarado, nenhum dos dois sabia qual a extensão daquilo que falavam, mas certamente sabia que haveria um fim em algum ponto.

            As respirações eram falhas. Os olhos caídos e embargados de lágrimas. Os gestos eram ora lentos ora bruscos. E os pensamentos vertiginando envolta de dias que não voltam mais.

            Era como uma tempestade há muito prevista, entrando sem pedir licença; entrando como se já fosse de casa. E de fato era. O brilho enfurecido dos olhos eram os relâmpagos, que chegavam antes do estrondo das palavras. Palavras amargas. Palavras acusadoras. Palavras abusadoras.

E cortantes. Cortantes como o ar gelado que faz a pele arrepiar-se até doer como um ferimento. As palavras atravessavam o ar, fazendo-o recuar, ocupando seu espaço, e chegando aos ouvidos que as martelavam até o coração. E elas cortavam. Cortavam. Torturavam. E doíam.

Ambos descobriram a navalha que eram as palavras. E eles as usavam com todo o empenho, ferindo o outro e tentando achar a parte mais afiada.

Mas os dois se cansaram. Cansaram de ferir ao perceber que suas palavras sangravam mais em si mesmo do que no outro.  Os relâmpagos se transformaram em tênues luzes sem brilho, sem fúria, só tristeza. Os trovões se reduziram à pequenas ameaças de gemidos. Eles se separaram. E as palavras foram embora. Mas a sua violência prevaleceu.

E o corte durou para sempre.