sábado, 15 de setembro de 2012

As luzes noturnas se dispersam...





    As luzes noturnas se dispersam. Tão facilmente recolhem-se nos reflexos dos vidros. Espelhos confeccionados para espelhar os dias das cidades. Se cada um pudesse registrar os minutos, teríamos um filme infinito sobre a passagem de carros e pedestres. Se ao menos cada um pudesse contar sua história...Mãe? Pai? Estudante? Doutor? De que me importa?

       De que me importa o mundo neste momento, senão que ele é o único no qual posso respirar? Há algo de um laço tênue, dançando pelo frio, rodopiando pela incerteza, desgarrando-me de meu próprio humor. Que humor um tanto alcoolizado. Despido de convenção. Despido da necessidade da palavra. Deita-se n irregular receptáculo do "apenas ser". Irreal que a alma queira desgarrar-se do corpo, sorver o ar si mesma, empoeirar a angústia no grande vazio no qual os erros e angústias são jogadas. Abismo do meu medo. Temendo que o negro se encante por meu espírito.

      Inúmeras marcas que pulsam e revolvem nos pneus dos carros. O asfalto é marcado pela nudez humana. Nudez mundana. Essas dobras que rangem nessa existência morosa, embaraçam-se com um ar soturno. Límpidos passos sapatearam na esquina agora há pouco. É o som de um pouco de gozo, cortesia do corpo feito do barro mais consistente que Deus encontrou. Não sei se foi erro ou acerto. Só sei que foi Deus o autor.

      Sem sentido, as palavras tendem a se revoltar contra o destino. Os demônios adormecem e despertam no frágil coração apaixonado. As luzes noturnas...elas se dispersam, meu amor. Nossa luz no abismo da noite...ela se dispersou.
      

domingo, 22 de julho de 2012

MAR



        Morava em um pedaço de terra longe do litoral
      Mas, um dia, meus olhos viram o mar
       E suas palavras eram outras
       Seu sentimento era outro
         Mergulhada no silêncio da imensidão profunda
Sua verdade era outra
 Ninguém profana tal santuário
  O azul abrigando a poesia
     E o mar era eu.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Conversas com Deus


            Cá estou eu. Com pés firmes no chão, ansiosos para peregrinar até o centro. Já tem algum tempo que um estranho suspiro reina em mim. Minha respiração caminha a passos rápidos, sem fim. Caminhará até quanto tempo? Esforço-me por um respirar lento, que cante as melodias junto ao suspiro.

            Suspiro profundo. Não de melancolia. Não de derrota. Suspiro de infinito. De algo que não tem começo nem fim. Só suspira, encantadoramente, seduz minha respiração, seduz meu pensamento, vibra em cada molécula entre o céu e a terra.

            Cada passo parece fazer o chão tremer, cada passo ganha mais força, cada passo tem a fibra incansável de um exército. Então, se eu sou um exército inteiro, quantos exércitos não estremecem o chão com seus passos? Quantos exércitos não lutam sem fim? Quanto ar não circula sem processamento? Sem paz, só batalhas, até milhões de exércitos darem um último suspiro.

            É isso. Últimos suspiros. Batalha vencida e perdida a todo momento. E ainda, resta suspiro de infinito. Eu aqui com meus pés firmes no chão. Eu aqui desacelerando a respiração. Eu aqui tentando o centro alcançar. Mas a respiração se une ao vento, o ar esquece meu peso e eu vôo. Voo até o centro. Voo acima do mar de fúria. Acima da areia movediça. Diluindo luz. Voando, não há tropeço. Voando, tudo é um todo, tudo é um sopro. De vida.

            Sopro. Suspiro. Centro. Incessantemente explode um feitiço lento. Eu aqui, pensando que respirava sozinha e, no final, descobri que andava tendo conversas com Deus.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Paciência

   
              Sem que você perceba, momentos decisivos chegam. Não percebe, mas eles sempre mandam aviso prévio, porque tudo que se vive no espaço do tempo faz parte de uma grande preparação, e o próprio instinto muitas vezes nos avisa que chegou a hora de algo se renovar. Às vezes, esses momentos chegam de repente, representam uma diversidade de caminhos entres os quais você desejava não ter que escolher só um. Às vezes, uma cadeia de acontecimentos te leva a eles. Mas é sempre assim. Em um dia, lá estão eles, preparados para marcar um fim e um começo em sua jornada.
            Não há promessas de que tudo acontecerá bem. São poucas as garantias que temos de qualquer coisa. A dor certamente virá, com essa a vida ela fez um acordo mais do que firme. Mas a alegria também virá, dependendo de como sua procura por ela se der. Não há muito o que falar na verdade, tudo parece embaraçado, mas no final, quando vem um pouco de calmaria você percebe que valeu a pena todo o árduo trabalho, valeu a pena as lágrimas, valeu a pena abdicar de quem você era uma dia para construir aquilo em que você pode se tornar. 
            Não é que a vida te fez esperar demais, mas sim que você não soube como esperar. Esse verbo vem da fé e da persistência. Não significa sentar no banquinho e ver o vento passar. Tem que fazer por merecer. Esperar é andar, é movimento, estender o braço até alcançar a verdade e abraçá-la. E só os céus sabem o quanto uma espera dessas vai te abater, te enganar, tirar de você a criança que começou lá no começo e tentar de dar um senhor carrancudo que se desgraçou por pura amargura. Não aceite esse senhor. Agarre-se à criança. E aceite tanto as flores quanto os espinhos. Beleza só é beleza quando trazida por quedas.
            Tente aprender que viver é uma loucura, mas a loucura é o tempero ideal para quem deseja bons tempos. Você chorou. Gritou. Amaldiçoou os dias. Abdicou de tantas coisas. Pensou que a recompensa não viria. E tudo o que faltou no caminho, e que você acaba percebendo no final é que, afinal, o elemento chave a espera sobre a qual falei era a Paciência. Paciência assim mesmo: com P maiúsculo. Porque esse é um símbolo grande, é o conselho de todo sábio. 
            Paciência não é virtude que se aprende rápido. Porque todas as lições que aprendemos ainda serão muito testadas, que é para que elas se mostrem, realmente, aprendidas. Mas, uma vez aprendida, é brisa que sopra na vida, sem deixar uma folha sequer cair. A árvore cresce indefinidamente, até tocar o céu.


Não mando qualquer ano embora. Primeiro, porque por pior que tenha sido, no fim vejo o quanto aprendi. E segundo, porque nunca sei o que está por vir. O novo pode ser tão maravilhoso quanto sofrido. Portanto, vivamos os últimos dias do velho como se ainda tivessem o frescor do novo, pois, não fosse um ano velho, não haveria um ano novo. E vivamos mais ainda o que está por vir; tenhamos a sabedoria (árdua) de treinar a paciência.
Um Feliz Aniversário para Jesus. E um Feliz Ano Novo para a Vida.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Amor



             Eu não consigo colocar em palavras aquilo que sou. Aquilo que me permite sentir o coração como algo vivo e o sorriso como algo autêntico. Eu não sei o que é isso: amar. Eu sei o que é isso: amor. Amor, eu sou. Amorosamente, me dôo. Não conjugo o verbo, que é para ele não mudar. Porque amor não muda. Ele é sempre, ardoroso, constante. É toda a essência que traz alguma esperança de alegria. Mas eu não sei falar.
            Talvez seja por isso que as estrelas caem do céu. Talvez seja por isso que o céu é tão vasto. Talvez seja por isso que não saibamos onde o oceano encontra o céu nem porque o mundo gira tanto. É tudo amor, esperando para que também naveguemos pelo céu. Esperando para que também sejamos tão vastos. Esperando para que encontremos os limites do horizonte e o ponto que faz o mundo girar. Amor não é ter. Amor é ser. 
            Eu sou amor. Só isso sei dizer. Eu sou amor. Meus olhos assim me fazer ser. Minhas lágrimas assim me fazem ser. Meus pensamentos assim me fazem ser. Não é absurdo. É, simplesmente, amor.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Adeus


Cada batida do coração é um sentimento. Raiva, angústia, alegria, solidão, harmonia, tristeza. Sentimento. Sentimento. Sentimento. Cada palavra que sai pela boca é sentido. Sentido da palavra e sentido no peito. É poder. Palavra. Que som simples e aparentemente inofensivo, como a bela borboleta que pousa sobre a flor e anuncia a chegada da primavera. A bela borboleta que pode também permanecer no inverno.

Cada batida de suas asas é como cada batida do coração. Sentimento. Sente o imenso vazio chegar ao ouvir esta palavra: adeus.

Adeus meus grandes amigos. Obrigada pelo tesouro que me permitiram fazer. Adeus minha adorada família. Obrigada pelos ensinamentos que me fizeram quem sou. Adeus meu amor. Obrigada só por isso: por existir. Não pensem que é só minha boca que diz adeus. Não pense que é tudo assim, superficial como a água rasa. Não é rancor, nem ingratidão, mas sim, necessidade.

Adeus, agora, é cada batida de meu coração. É cada ar que inspiro e expiro. É cada palavra que me deixo falar e pensamento que me deixo pensar. Pois a alegria veio e foi embora no outro dia. A solidão veio e foi embora no outro dia. Mas a incerteza veio e me chamou para partir para encontrar o meu eu que vaga por esse mundo. Eu não confio mais no aqui para saber que caminhos devo andar. Mas confio nos caminhos, para descobrir em que aqui eu devo ficar.

Eu digo adeus, para saber se, aqui, é o meu lar.

sábado, 1 de outubro de 2011

Esperança



Esperança é sentir a brisa no monte desvelado. É sorrir sonhos em dias enevoados. É viver o não-vivido quando ele já se foi.

Esperança é ter o mundo mesmo de mãos vazias. É entender o tudo como ele nunca foi um dia. É esperar paciente o amanhã se revelar.

Esperança é ver cada partícula de ar se elevar. Ver o dia carregar para o céu a mesma cor do mar. É saber o não sabido sem nem mesmo refletir.

Esperança é ter sempre o novo como visão de futuro. É ver infinitos no lugar de muros. É intuir que o fim só é fim quando o tempo a todos levar. É fé. É força. É respeito. É tudo que de melhor se carrega no peito. Novamente, é esperança, tal como o sorriso da criança, que olha pro mundo e vê que ele, afinal, não é mal assim para os quem tem os olhos certos para ver. 

Esperança. Nunca morre, para que possamos viver.